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Flávio acusa a CNBB. A caneta devolve o que era falso
Não há projeto para tirar o título de Nossa Senhora. A acusação contra os bispos também não veio com nome. No meio, Dino desfez a ordem que tinha tirado o boato do ar.
27 de setembro de 2026 · Brasília · Pax Brasílis
A uma semana do primeiro turno, duas frases andam juntas e nenhuma das duas é documento. Em Goiânia, neste domingo, Flávio Bolsonaro disse que gente de dentro da CNBB ajudou o PT a levantar a notícia de que ele tiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Horas antes, Flávio Dino tinha desfeito a ordem de André Mendonça que mandava esse conteúdo sair das redes.
O núcleo do boato é falso. Não há projeto de Flávio para retirar o título. Ele mesmo disse, no dia 24, que isso não existe. A ideia parecida que se acha no arquivo da Câmara é outra: um projeto de 2007, do então deputado Victorio Galli, arquivado no ano seguinte. O que existe, de boca do candidato, é uma frase de agosto, num vídeo em que explicava a ausência no debate da Band: “quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.” Isso não é decreto contra Aparecida. Tratar as duas coisas como se fossem a mesma foi a fabricação. No dia 25, Mendonça chamou de notoriamente inverídico o miolo factual: que Flávio ou a família tenham proposto, articulado, apoiado ou pretendam promover a retirada do título.
No mesmo fôlego, Flávio mudou o alvo. Disse que a maior fake news da campanha era essa, que o PT já tentava erguê-la havia dias e que “conseguiu com a ajuda de gente dentro da CNBB”. Não deu o nome, a mensagem nem o papel. Disse que a campanha identificou a rede e que vai buscar responsabilização eleitoral e na Justiça. Rede, se existe, se mostra com horário, conta e print. “Gente dentro da CNBB”, sem sobrenome, é outra frase à procura de prova.
Mentira não se combate com outra mentira. Também não se combate com caneta que devolve a primeira ao feed.
A Conferência respondeu na mesma noite, sem citar o candidato. Não produziu, não autorizou e não participou de informação falsa neste processo eleitoral. Não integra estrutura de partido ou de candidatura. Atribuir isso sem fatos, escreveu, atinge a instituição e não ajuda a serenidade do pleito. A frase que fica é direta: a mentira não se combate com outra mentira. Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União, postou solidariedade e chamou os ataques de injustos. Até o fechamento da CBN, o PT não tinha se manifestado.
O abafo está na largura da caneta. No dia 25, Mendonça não derrubou só o post de Antonio Tabet. Vedou republicar o mesmo conteúdo ou “narrativa equivalente”, com multa diária de R$ 30 mil, e mandou indisponibilizar em massa. A linha de Tabet, que não cita Flávio, era esta: “A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!” Neste domingo, Dino atendeu o humorista no Supremo. Disse que tirar o post do ar exigia duas operações proibidas: presumir que “família miliciana” é um candidato certo, e interditar debate religioso por decisão sem motivação e sem proporcionalidade. Aí a caneta alargou. Mandou restabelecer a postagem de Tabet “e das demais que tenham sido excluídas pelo mesmo fundamento”.
É aí que o caso se abafa. A sátira que não nomeia ninguém e o post que afirma o fato falso voltam juntos, a uma semana do voto, porque a reversão usou a mesma largura da proibição. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, e os advogados do candidato trataram a ordem como devolução da mentira ao ambiente e questionaram o caminho até Dino, noutro processo. O limite que Dino aponta — não presumir apelido — é real. O efeito de devolver “as demais pelo mesmo fundamento” é outro: o leitor reencontra o boato e não reencontra, no mesmo gesto, o projeto que não existe.
Duas mentiras não se anulam. É falso que Flávio tenha projeto para tirar o título de Aparecida. Não está demonstrado que alguém de dentro da CNBB tenha fabricado esse boato com o PT. O que está demonstrado é a sequência. Boato no dia 23. Desmentido no dia 24. Remoção no dia 25. Devolução no dia 27. Acusação aos bispos no mesmo dia, ainda sem nome. A pergunta útil não é qual lado gritou mais alto. É qual frase continua sem documento atrás.
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