Ir ao conteúdo

Bastidores//6 min

A emenda que ninguém explica no palanque

Instituto, assessor, repasse apresentado como legal. O caso da Taquara mostra o orçamento virando corredor antes de virar serviço.

24 de setembro de 2026 · Brasília · Pax Brasílis

Emenda parlamentar não é, por definição, crime. É a ferramenta com que deputado e senador marcam território: posto de saúde, quadra, entidade do bairro, instituto de conhecidos. O problema começa quando o intermediário da conversa já carrega uma condenação grave e o destino do dinheiro precisa de nota de rodapé para parecer apresentável.

O que está público — e o que CNN, Estadão e a Polícia Federal colocaram na mesa — é este retrato. Robson Calixto, conhecido como Peixe, é descrito como ex-PM e assessor de Domingos Brazão, condenado pelo Supremo no caso Marielle por organização criminosa armada. Em 2023, ainda solto, teria negociado com uma assessora de Flávio Bolsonaro uma emenda de R$ 199 mil para um instituto na Taquara, no Rio.

A PF investiga desvio. Flávio afirma que o repasse foi legal. As duas frases podem conviver por um tempo, e é exatamente aí que o cidadão se perde. Legalidade de procedimento não responde a pergunta política: por que esse nome, esse instituto, esse valor.

Se o parlamentar não explica o serviço em uma frase, a emenda não é política pública. É relação.

O teste que uso é curto. Se o parlamentar não consegue dizer, numa frase, qual serviço aquele instituto presta e por que aquele dinheiro, a emenda não é política pública. É relação. Relação pode caber no papel e ainda assim ser indecente na origem.

Quem cobre bastidor não precisa inventar conspiração. Precisa ler o nome de quem sentou, o valor, o beneficiário e a frase oficial. Quando o documento e o discurso brigam, fico com o documento. O resto o leitor completa sem a minha ajuda.

Enquanto emenda for moeda de fidelidade, casos assim não serão exceção. Serão o método com outro CEP.

Opinião. Filiação ao Progressistas declarada. Não é nota oficial de legenda nem reprodução de assessoria.

Na mesma mesa

Voltar à edição